
“I want my 50 women”.
O Spaghetti Western não é exatamente um gênero muito original – dentro de si mesmo -, praticamente as mesmas histórias de vingança e ganância se repetem, com personagens homônimos e anônimos copiados e inspirados uns nos outros, fazendo do SW um ciclo vicioso, que conta várias vezes as mesmas histórias com abordagens ou personagens vagamente diferentes. A fórmula se repete mais frequentemente nos filmes mais independentes e low budgets que descontroladamente nasciam, sendo cópias de um ou outro mais famoso. A diversão em ver um SW estava na ação – mais frequente que nos faroestes americanos -, realismo e violência, mostrada de forma crua, muitas vezes brutal, além da trilha sonora geralmente above the top.
Porém, alguns westerns conseguiam se destacar entre tantos outros, por algum quesito em especial, ou por vários. BLINDMAN (1971) é um deles. A trama original e um personagem nunca visto antes em westerns, aliadas a um elenco competente, à direção do já consagrado Ferdinando Baldi (o mesmo de VIVA DJANGO!) e à violência e crueza característica do gênero, fizeram de BLINDMAN um filme memorável.
BLINDMAN conta a história de um pistoleiro cego que é contratado para levar 50 noivas a seus maridos, mineiros, no Texas. Mas o cego é enganado por seu companheiro e a mercadoria – 50 belas mulheres – é extraviada e vai parar nas mãos de um bandido mexicano. Agora o cego vai no rastro do bandido Domingo para recuperá-las.

O cego e seu prodigioso parceiro.
O pistoleiro cego é uma versão western do lendário espadachim cego japonês Zatoichi, mas ao contrário dele – e de outros heróis cegos, como o Demolidor -, Blindman não conta com nenhuma habilidade sensorial superaguçada, e muito menos um manejo prodigioso de suas armas. Blindman é um cego comum, com todas as limitações que isso implica, e para ajudar na sua jornada conta apenas com seu cavalo esperto e a simpatia das pessoas. Por pura sorte – ou ironia do destino – o cego consegue sobreviver num trabalho tão arriscado, em uma época e lugar tão hostis.
A trama pode parecer absurda – e na minha opinião É! - mas a ótima atuação do injustiçado Tony Anthony (que também escreveu o roteiro do filme) nos faz acreditar que um cego poderia muito bem estar no meio de toda essa confusão, e com alguma sorte e astúcia sair vivo. O final do filme confirma que apesar de tudo o cego é um personagem possível: ingênuo e bastante fácil de ser enganado, e que provavelmente não durará muito naquele ambiente selvagem.

Ah, é. Ele adora explodir coisas.
O filme é superestilizado e possui uma narrativa com ingredientes de videoclipe e comics. Também possui forte violência gráfica, algumas cenas de massacre são difíceis para os mais sensíveis assistirem, sem sentir algum desconforto – como a chacina à tropa no salão de festas de Domingo e a caça às mulheres no deserto, onde elas são mortas e violentadas sem nenhuma piedade. BLINDMAN é recheado de viscerais cenas de violência e nudez, tudo isso num cenário sujo e detestável, com casas imundas, cidades abandonadas e homens peludos e barbados. Contraditoriamente, BLINDMAN é um banquete para os olhos, pois constrói tão bem aquele fantástico mundo feio e violento, mas ao mesmo tempo tão estiloso, e nos conduz por ele através da jornada de um personagem carismático e quase ingênuo. BLINDMAN vai na contramão dos SW da época, mostrando um personagem debilitado, à margem da morte e da derrota, um pistoleiro que precisa atirar várias vezes – sem nem saber ao certo onde está atirando – e continuar apertando o gatilho sem ter certeza se seu oponente está morto.

Ringo Starr contracena com a bela Agneta Eckemyr.
As atuações de Tony Anthony – o cego – e Lloyd Battista – o vilão Domingo – são maravilhosas, e além deles o ex-Beatle Ringo Starr faz uma ponta, numa atuação decente, no papel do irmão de Domingo, Candy. A trilha sonora acompanha o ritmo do filme e a direção do sanguinário Ferdinando Baldi não tem pudores ao mostrar imagens chocantes, mas também captura de forma majestosa em belos planos a paisagem desértica da região da Almeria.

Como manda o figurino, o duelo final acontece num sombrio cemitério.
BLINDMAN é um bizarro e magistral spaghetti western, uma história ora ingênua ora virulenta. Com uma narrativa instigante, personagens bem encaixados – e carismáticos – e uma ação decente, além de um roteiro original, BLINDMAN se destaca como um dos melhores do gênero, uma experiência bizarra e nauseante para quem não é acostumado, certamente, mas indubitavelmente uma obra-prima – estranha e cativante – do amalucado Velho Oeste à italiana.

Pôster do filme
À época, o filme foi banido em vários países, e, naqueles em que não, recebeu classificação etária máxima. As cópias americanas do filme possuem algumas cenas a menos – e portanto uma duração menor – e provavelmente são bem confusas e incompletas, já que algumas cenas que considero importantes não estão lá. Isso é notável na versão completa agora: a maioria das cenas foi dublada em inglês, mas algumas outras permanecem em italiano (as cenas que foram cortadas da versão lançada nos EUA), fazendo com que a língua falada no filme seja constantemente trocada sem nenhum motivo aparente – agora você sabe o motivo!
Uma sequência para BLINDMAN possivelmente seria feita, mas Tony Anthony, mesmo depois do fim das filmagens, sentia uma irritação terrível nos olhos, devido às lentes de contatos, e preferiu não as usar mais.
No Brasil BLINDMAN saiu em VHS (com o título de O Retorno de Gringo e com uma foto grande de Ringo Starr na capa, pff), depois em DVD pela Ocean Pictures como Preso na Escuridão, além de ser exibido na TV como O Cego.
BLINDMAN (1971)
Cotação: 4 buracos de bala!
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