Uma simples – demasiadamente – e despretensiosa crônica que escrevi esses dias.
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Cheguei encharcado ao pequeno consultório odontológico. O suor escorrendo pelo queixo, e os olhos claros já meio doídos de tanto absorver essa maldita e impiedosa luz do sol de Teresina. A contragosto saí de casa no horário mais cruel de todos, ainda mais quando estamos falando da capital do Piauí – meio-dia – e, com o semblante retorcido, e corpo queimando de calor, caminhei a passos apressados, passando pelas calçadas vazias da minha rua, até a parada de ônibus. A espera do Amarelão me fez pensar quantos lugares na fila de espera eu perderia, mas depois de uns trinta minutos, entre olhadas sem motivo para o celular e canções cantaroladas, o dito cujo finalmente chegou. A ida foi tranquila, mas como sempre fiquei com enjôo pelo balanço do veículo, que mais parecia estar participando de alguma corrida ao pote de ouro, somado à luz do sol perfurando indefensavelmente meus olhos – mas esse é o tipo de sensação que você se acostuma e aprende a reprimir. Finalmente, após descer e caminhar alguns metros, chego ao meu destino.
Um pouco de vergonha ao tentar abrir a porta gradeada de ferro e não conseguir – e nem entender os gestos que as pessoas na saleta me faziam, que significavam ‘tira o ferrolho em cima’ – mas nada que um desastrado como eu não esteja acostumado. Entrei cabisbaixo naquela sala de espera que mais parecia um cubículo, com minha mochila suja – e foi aí que percebi que ela precisava urgentemente de uma lavagem – e de soslaio vi os tipos que se encontravam ali: um senhor e uma senhora de uns aparentes cinqüenta anos, dialogando efusivamente, e uma garota que provavelmente não passava dos vinte e dois anos, ouvindo alguma coisa com fones de ouvido.
A atendente apareceu de um pequeno corredor, que levava ao consultório, e perguntou se eu era o “Felipe”, errando meu nome como sempre acontece. Eu confirmei e ela disse que era só esperar. Como se eu não soubesse.
Um debilitado ventilador girava tentando ventilar a saleta, mas o vento morria no meio do caminho, engolfado pelo ar abafado. O senhor e a senhora estavam conversando sobre kreps, e falando como eles faziam e vendiam os deles, quais os materiais usavam, em que lugar vendia-se melhor, etc. Isso não me incomodava. Pelo menos até eu pegar um livro da minha bolsa e tentar ler, em vão. Então guardei o livro; decidi apenas olhar as revistas disponíveis ali no canto da sala, em cima de um cesto no chão. Depois de enriquecer-me culturalmente sabendo quem estava no Castelo de Caras e quem estava na Ilha de Caras – é muito importante, favor não confundir – e usar as revistas pra um bem maior do que para o qual elas foram planejadas – me abanar – a senhora foi chamada ao consultório, e após uns – eu imagino – vinte minutos de conversa sobre coisas definitivamente não relacionadas à sua arcada dentária ou saúde bucal, que eu pude ouvir da sala de espera, a dentista começou seu trabalho, enfim. Após a senhora sair, eu pensei “oba, agora só faltam dois”, então o seu filho chegou, e entrou no consultório, de nariz empinado, sem ter que esperar como eu. “Eu tava guardando o lugar dele”, [in]justificou a senhora. Tudo bem, o dia já foi perdido mesmo.
Umas três horas depois de eu ter saído de casa, finalmente sou atendido. Não sei como alguém passa por tudo isso pra deitar numa cadeira que mais parece um aparelho de tortura medieval, e ouvir o som do inferno vindo daquela broca desgraçada. Aliás, dentistas são pessoas insensíveis, não importa o quanto você se contraia na cadeira e gema, sempre é frescura sua. “Tem uma língua querendo ser cortada aqui”, disse rindo a dentista, com sua voz rouca. “Acho que dentistas usam máscaras pra não serem reconhecidos e sofrerem retaliação, isso sim”, pensei, não tão a sério.
O resto não merece ser contado, mas meu dente doeu por várias semanas, graças à brutalidade daquela odontologista, e acabei desistindo de fazer o tratamento. Moral da história: Teresina é quente como o inferno, pessoas furam fila sem remorso, salas de espera são muito chatas e escovem os dentes, crianças.













